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Docente da EPM/Unifesp integra grupo que desenvolve vacina brasileira

Publicado: Segunda, 22 de Março de 2021, 18h41 | Acessos: 14921

Tecnologia estimula resposta imunológica mais potente

Por Valquíria Carnaúba

O mundo já aplicou mais de 80 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, de acordo com o Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford. Um ano após os primeiros casos, oito vacinas já receberam autorização para uso e mais de 250 estão sendo desenvolvidas. Uma dessas é 100% nacional e está nas mãos de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto do Coração (InCor).

Trata-se do projeto Desenvolvimento de vacinas para SarsCoV-2, custeado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTIC) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). De acordo com Daniela Santoro, imunologista e docente da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, a demanda surgiu logo no início da pandemia, após a criação do comitê Rede Virus MCTI. A aposta dos pesquisadores é em uma vacina em spray nasal, de baixo custo, que estimule uma resposta imunológica mais potente ativando as células B e T.

“A iniciativa viabilizou um aporte de R$ 9 milhões, por contratação direta, a dois projetos considerados promissores. Um deles é o nosso, liderado pelo docente da USP e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Imunologia (INCT III), Jorge Kalil. O outro é coordenado por Ricardo Gazzinelli do INCT Vacinas”.

Santoro afirma que a pesquisa abre um importante precedente para o desenvolvimento de tecnologia em saúde no país, hoje dependente dos insumos importados para prosseguir com a imunização da população. “A pesquisa é uma oportunidade de gerar conhecimento para que, no futuro, o Brasil possa dominar as principais etapas da produção de uma vacina”. Confira entrevista completa abaixo.

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Daniela Santoro Rosa, docente da EPM/Unifesp. Foto: Arquivo pessoal.

 

-Qual a proposta central do grupo?

Nossa meta é entregar uma vacina 100% brasileira, que induza a resposta imune à covid-19 por duas vias: com anticorpos e com células T. Queremos que desde o projeto até o ensaio clínico sejam executados no país. Já tenho contato com Kalil há um tempo, pois ambos trabalhamos na mesma área. Hoje atuo no Laboratório de Vacinas Experimentais (LaVEx) da Unifesp, onde desenvolvo estudos sobre vacinas contra vírus como o HIV, zika e chikungunya, e com a pandemia decidi entrar na corrida pelas vacinas contra o coronavirus. Mas para que a pesquisa pudesse agregar ao momento atual e ser competitiva, decidimos adotar uma estratégia diferente das convencionais.

-Qual a diferença entre uma vacina que se propõe a gerar anticorpos para uma vacina que estimula a produção de células “T”?

De um modo geral, os anticorpos induzidos pelas vacinas convencionais (febre amarela, sarampo) são neutralizantes, ou seja, têm o papel de “encobrir” a superfície do vírus que ameaça o organismo, impedindo sua entrada na célula hospedeira. Mas se algum vírus escapar dessa “frente de defesa”, consegue adentrar essa célula, infectando-a. A partir desse momento, o anticorpo não consegue fazer mais nada. Quando o vírus entra na célula, quem defende o organismo é a célula “T”, que pode tanto estimular a produção de anticorpos quanto, mais importante após a invasão, “assassinar” as células invadidas.

-Como é o processo de elaboração de uma vacina que estimula esse outro mecanismo do sistema imunológico?

Estamos estudando a resposta imune dos pacientes que já contraíram a covid-19 a partir de suas amostras de sangue. Uma parte do grupo acompanhou a resposta imune dos anticorpos, e a outra parte estudou a resposta imune celular. Para desenvolver vacinas que estimulam a produção de anticorpos, normalmente são mapeadas as regiões do microorganismo determinantes para o início da infecção. No coronavirus, o componente mais crítico do vírus é seu invólucro, composto pela proteína Spike, que se liga à Enzima Conversora da Angiotensina II (ACE II) das células alvo. Há um pedacinho dessa proteína, específico, que se encaixa nos receptores das células pulmonares, por exemplo. Esse pedacinho é alvo de anticorpos neutralizantes das vacinas que foram aprovadas e estão em uso (Pfizer, Astrazeneca etc). A vacina que estamos desenvolvendo terá esse mecanismo (anticorpos) associado a indução de células T, a partir do uso de outros pedaços do vírus – chamados epítopos.

-Como seria ministrada essa vacina?

A ideia é que ela seja mais acessível e possa ser administrada pelas vias nasais.

-Hoje existe uma certa polêmica em torno das vacinas que estão sendo ministradas na população, pois surgiram casos de pessoas que se infectaram pelo coronavirus mesmo após receber uma ou duas doses. É verdade que a vacina não funcionou nesses casos?

Não é verdade. O principal objetivo das vacinas que estão sendo utilizadas é evitar o desenvolvimento das formas mais graves da covid-19. E esse objetivo está sendo alcançado com sucesso. O indivíduo pode se infectar pelo vírus, mas não irá para UTI e isso é o mais importante.

-Assim como essa discussão, há outras que colocam em evidência a confiança da população na ciência. Como você vê esses questionamentos?

É importante a comunidade saber o que a ciência faz. Fizemos há pouco tempo um gibi chamado Dona Ciência explicando as diferentes vacinas contra a covid-19. Culturalmente, não aprendemos a entender a ciência, e agora jorra uma infinidade de informações, que por ser grande é difícil de ser assimilada, e fica difícil separar o que “fakenews” do que é realmente verdadeiro. O movimento antivacina cresceu de forma absurda nos últimos anos, e isso assustou a comunidade científica, principalmente porque o brasileiro sempre teve a cultura da vacinação muito bem enraizada. Em função disso, a taxa de vacinação caiu muito, e agora passamos a ver surtos de doenças que há anos não apareciam, como o sarampo. As pessoas passaram a duvidar da eficácia da imunização. O questionamento baseado na curiosidade é extremamente positivo, agora a negação da ciência é muito prejudicial.

-Além de mais uma opção segura para o combate à covid-19, há um outro legado deixado ao país por uma vacina nacional, que é a produção de conhecimento. Qual sua visão sobre isso?

O Brasil precisa dessa independência, pois estamos vendo na prática a dificuldade que nos traz ficar à mercê da importação de insumos. Essa está sendo a principal barreira para a vacinação em massa da população. Temos uma fragilidade enorme na produção de tecnologia, e dominar essas etapas será fantástico. Para a covid-19 a importância é inegável, mas a partir do momento que dermos esse primeiro passo, isso se torna um grande estímulo para a produção de outras vacinas que serão muito importantes para o Brasil. Por exemplo, a malária, leishmaniose e a doença de chagas são doenças que acometem nosso pais e permanecem negligenciadas.

 

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